Análise: Rendering Ranger: R² [Rewind] é o salvador da Terra que só era conhecido no Japão

Um dos títulos mais raros do Super Famicom ganha um lançamento global, mostrando que ainda tem muita coisa boa dos anos 90 para ser descoberta.

em 02/04/2025
Futuros distópicos em terras devastadas eram temas recorrentes nos títulos de ação da década de 90, principalmente nos shoot ‘em ups — os famosos jogos de navinha — e nos run and gun, ao estilo de Contra. Manfred Trenz, célebre criador da franquia Turrican, viu isso e decidiu unir esse enredo com os dois gêneros de uma vez ao criar Rendering Ranger R², lançado exclusivamente para o Super Famicom em 1995.

Passados 30 anos, a Limited Run trouxe este agora raro título dos 16-bits para PS4, PS5, Switch e PC, com o nome de Rendering Ranger: R² [Rewind].

O dobro de ação, o dobro de tiros

O Rendering Ranger, também chamado de Double R, é um soldado de elite que deve proteger o que sobrou da Terra, bem como os últimos sobreviventes, de uma iminente invasão alienígena. Ele deve cumprir a sua missão tanto em solo quanto no ar, e é isso que torna este título bastante singular para a época, pois dificilmente um jogo de ação iria misturar dois tipos de mecânicas dessa maneira.

Nas fases no chão, Double R pode atirar em oito direções diferentes (herança de seu irmão mais velho, Turrican), revezando entre quatro tipos de projéteis, que podem ser fortificados com itens coletados pelo caminho. Os tiros incluem disparos horizontais tradicionais, projéteis que ricocheteiam nas paredes, tiros concentrados e balas mais fracas, mas que abrangem trajetórias verticais, horizontais e diagonais.

Os inimigos aparecem em um ritmo desenfreado, mas não adianta só correr e atirar para frente, pois a retaguarda também é ameaçada, seja por naves, robôs, ou qualquer outra coisa que tenha armas. Por isso é importante usar a bomba especial, que varia de acordo com o tipo de projétil que estamos usando na hora.

Os estágios com nave não ficam devendo a nenhum shoot ‘em up, mesmo sendo um pouco mais curtos. Existe tanto a tradicional onda sequencial de inimigos quanto as gigantescas naves extraterrestres, mas nosso veículo também está dotado de alguns truques. Também podemos contar com quatro tipos de tiro, na mesma pegada do controle do soldado, com a adição de duas sondas auxiliares, que aumentam nosso poder de destruição.

Outro ponto interessante na mecânica é que há a possibilidade de virar a nave, deixando-a de frente para o lado esquerdo da tela, com liberdade similar ao controle do soldado. Isso já era algo diferente em 1995 e continua sendo hoje, visto que shooters atuais ainda se inspiram na parte mais raiz da jogabilidade, que envolve manter a nave sempre atirando para a direita.

Isto dito, e sem nenhum exagero, Rendering Ranger R² [Rewind] consegue se manter em um nível de entretenimento bastante parelho com diversos títulos mais novos. A resposta dos comandos é ágil e não fica devendo aos controles atuais. Isso que é envelhecer como vinho!

Como nunca ouvi falar de você antes?

A Limited Run Games parece ter entrado de vez na onda de caçar títulos esquecidos ou obscuros e lançá-los para as plataformas atuais. Seguindo o mesmo que fez com Felix The Cat e Ninja Five-O, Rendering Ranger: R² [Rewind] é o resgate que só ficou conhecido no lado oriental do planeta por todo esse tempo. Isso fez dele um dos títulos mais raros do Super Famicom que se tem notícia, com apenas 10.000 cópias lançadas.

Curiosamente, o Rendering Ranger: R² original foi lançado em inglês, mesmo restrito ao Japão. Uma versão para a Europa e América do Norte estava planejada, com algumas mudanças visuais e com o nome de Targa, mas ela nunca saiu da gaveta. Pois bem, ela está inclusa aqui em Rewind, e por mais que ela seja estruturalmente igual, é bacana reparar nas diferenças estéticas, como a troca de visual do capacete do soldado — um tanto quanto genérico — para o rosto humano.

Por falar em visual, também vale citar que Rendering Ranger: R² tinha todo um trabalho desenhado à mão, mas o sucesso de Donkey Kong Country motivou a equipe de desenvolvimento a trocar os sprites por elementos pré-renderizados. Isso possibilitou o uso de objetos em 3D, que aumentavam a sensação de profundidade na tela em meio à ação bidimensional.

Para acompanhar as duas ROMs, que não deixam de ser novidades por si só, há os filtros de tela, que já são uma opção de série, e como o nome sugere, o botão Rewind (rebobinar). E, acreditem, neste título ele é bem necessário, pois como não há continues após perdermos todas as vidas, ele é uma mão na roda em momentos complicados.

Também há uma opção para salvar e outra para carregar o jogo, mas nada de vários slots, apenas um save que pode ser substituído para cada título. Aqui eu deixo uma leve observação: a cor que destaca o “sim” ou “não” é muito clara, e é capaz do jogador nem perceber qual opção ele escolheu.

Há duas adições que agregam bastante riqueza ao pacote. A trilha sonora pode ser ouvida  diretamente no menu, com direito a um remix exclusivo para a música de abertura, e a galeria traz um compilado de imagens que vão desde as ideias desenhadas à mão até os modelos renderizados inseridos no jogo.

Também estão presentes o scan da caixa original de Super Famicom e o manual original em japonês. Para quem não é versado no idioma nipônico, também foi incluída a tradução em inglês do manuscrito, com direito a uma minibiografia do criador Manfred Trenz.

Aos poucos, a Limited Run Games vai criando sua receita de bolo, tal qual já fizeram ININ Games e Ratalaika Games com seus ports e coletâneas. Para os títulos que ela trouxe até o momento, é um bom conjunto, mas é bom ter cuidado para não cair na armadilha de replicar esse modelo exaustivamente e deixar de explorar todo o conteúdo que futuros lançamentos possam oferecer.

Por mais ports como este

Rendering Ranger: R² [Rewind] integra a constelação de estrelas antes nunca vistas pelo público geral, que finalmente ganha a atenção devida. Mesmo com seu lançamento há três décadas, a mescla de mecânicas e jogabilidade precisa o tornam bastante atrativo para o público geral que gostaria de ter um gostinho dos anos 90 em seu estado natural.

Prós

  • Uma união bem pensada de run and gun com shoot ‘em up;
  • Jogabilidade precisa e a possibilidade de virar o lado da nave é um recurso raro até hoje;
  • Inclusão da ROM nunca lançada de Targa;
  • Inclusão de recursos como filtros de tela e botão para rebobinar;
  • Galeria com itens traduzidos para o inglês e jukebox.

Contras

  • Apenas um espaço para salvar e carregar o jogo;
  • A cor da seleção de opções do menu é muito clara, dificultando a visualização.
Rendering Ranger: R² [Rewind] — PC/PS4/PS5/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise feita com cópia digital cedida pela Limited Run Games
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Carlos França Jr.
é amante de joguinhos de luta, corrida, plataforma e "navinha". Também não resiste se pintar um indie de gosto duvidoso ou proposta estranha. Pode ser encontrado falando groselhas no @carlos_duskman
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