Análise: Afterlove EP é um mergulho impactante por uma vida em reconstrução no processo do luto

Esta aventura textual da Pikselnesia mostra o esforço de um jovem músico em redefinir a sua vida.

em 13/02/2025
Desenvolvido em memória póstuma ao seu idealizador, Mohammad Fahmi Hasni, Afterlove EP é uma aventura narrativa sobre um jovem rapaz que precisa encarar o luto junto com outras questões da vida. Com o sonho de fazer sua banda ser um sucesso, ele precisará se esforçar durante o período de um mês para lidar com o bloqueio criativo e juntar os cacos da sua identidade.

Uma banda em crise

Rama é um jovem rapaz vocalista e guitarrista na banda Sigmund Feud, um trocadilho com o nome do famoso psicanalista austríaco. Junto de seus companheiros de banda, a baixista Tasya e o baterista Adit, eles dedicam seu tempo livre para ensaios e apresentações locais na cidade de Jacarta, na Indonésia.

Um dia, porém, Cinta, a namorada de Rama, acaba falecendo. Mais do que o simples choque do evento, há toda uma circunstância mais complexa que aumenta a carga de culpa do protagonista pelo ocorrido. O peso do luto é tão grande que ele acaba se isolando por um ano inteiro.

Quando Rama finalmente decide entrar em contato com os dois colegas de banda e tentar quebrar o ciclo vicioso em que se encontra, logo percebe que a situação não é tão simples quanto parece. Enquanto a sua vida parece ter ficado congelada, as pessoas ao seu redor estão seguindo em frente e Tasya dá um ultimato ao rapaz.

No fim do mês, a Sigmund Feud irá marcar presença fazendo a abertura para a banda L'Alphalpha. Para isso, então, será necessário participar dos ensaios e reconstruir as relações deles ao longo desse tempo.

Um relógio parado no tempo

Infelizmente, lidar com toda a situação não é nada fácil. Cinta está sempre presente nos pensamentos de Rama não apenas de forma abstrata, mas como uma entidade que conversa com ele frequentemente. Não importa o contexto: ela está sempre dando palpite e guiando o rapaz em suas decisões.

É especialmente interessante que a personagem é a única a ter dublagem no jogo inteiro. Toda a história é contada via texto sem vozes, mas justamente essa figura misteriosa acaba tendo esse elemento extra que a deixa mais real e presente. Vale dizer que Cinta é cheia de personalidade e trejeitos que são lindamente interpretados pela sua dubladora Risa Mei.

Além dos comentários constantes ao longo da trama, Cinta marca presença em pontos-chave da cidade através de um sistema de recordações. É possível lembrar de momentos do passado que o casal vivenciou, cenas mundanas, mas que continuam marcantes na memória.

Um ponto que gostaria de destacar é que a experiência do jogo é bem honesta em sua representação tanto do luto quanto de interações sociais. Não senti que houve uma tentativa de sanitizar o processo e deixar tudo “bonitinho”. Muito pelo contrário: temos personagens sendo insensíveis uns com os outros e temos o próprio Rama refletindo sobre si e notando que ele mesmo também está errado em algumas de suas atitudes.

Emocionalmente falando, Afterlove EP é um jogo pesado, em que o processo de luto é vívido. Não é uma história de sucesso e superação, mas uma experiência que realmente parece real, que consegue não ser nem puramente cínica, nem um destilado de esperança.

De volta à vida cotidiana

Um ponto importante de Afterlove EP é que todos os dias desse mês de jogo envolvem sair de casa, interagir com os personagens e criar uma certa rotina. Embora alguns momentos tenham objetivos específicos, durante boa parte do tempo é possível escolher o que fazer.

Em meio a uma cidade dividida em blocos, é possível, por exemplo, passar o tempo conversando com o vendedor da loja de discos ou uma amiga da namorada do Adit. Também é possível ir para a terapia, fazer performances de rua ou buscar as já mencionadas recordações de Cinta pelos cenários.

Com o hábito, é possível se aproximar das pessoas e até conquistar um novo amor. O jogo também conta com finais alternativos para a banda após a sua performance. No PC, temos achievements para várias dessas coisas, servindo como um incentivo secundário para explorar situações alternativas.

Também considero as performances de Rama um momento interessante, pois envolvem a composição de letras novas. Embora nunca se tornem músicas do jogo, elas ajudam a ver um pouco do turbilhão emocional que o personagem está passando com as opções de frases que temos para montar essas letras.

Um ritmo um pouco cru

Como entramos no papel de músico, Afterlove EP conta com sequências musicais em estilo rítmico. Há uma espécie de pauta musical (mas com seis linhas em vez de cinco) no canto inferior da tela e notas com indicações de direcionais se aproximam de ambos os lados.

A ideia é apertar o botão indicado no momento em que ele alcança o centro da tela. Em alguns casos, a nota pode ser estendida até a próxima, sendo necessário manter o botão pressionado. Dependendo do timing, o jogador pode ser avaliado com “Perfect”, “Good” ou “Miss”.

Infelizmente, ao contrário do usual do gênero, essa avaliação é apenas da nota naquele momento exato; ou seja, não temos uma noção explícita da qualidade da nossa performance como um todo. Como o jogo possui conquistas para pontuação perfeita em algumas músicas, isso é considerado no jogo, mas não é comunicado de forma clara para o jogador.

Para tentar entender melhor a situação, eu cheguei a voltar em um save antigo após terminar a campanha principal para fazer a pior performance possível e ver se isso afetava o roteiro de alguma forma. No fim das contas, a história seguiu igual, mesmo eu não pressionando sequer uma das notas, com os personagens respondendo que “foi incrível” do mesmo jeito. Se há diferenças entre “performances que importam” e “performances que não importam” para a trama, seria bom uma indicação mais clara disso.

Outro problema é que não temos nenhum feedback sonoro para os acertos, apenas os erros. Isso é um elemento fundamental no gênero para que o jogador pegue o ritmo correto, então é outra falha grave. 

Por fim, senti falta de um modo separado para rejogarmos as músicas após terminarmos a campanha. Infelizmente, acabar o jogo implica em só poder voltar a “tocar” se tivermos saves anteriores guardados ou começar desde o início. Com tudo o que expus aqui, é importante ter em mente que, na prática, o design do jogo deixa essa experiência rítmica no segundo plano dentro da experiência narrativa.


Isso é uma pena, especialmente tendo em mente a alta qualidade da trilha sonora, que inclui algumas músicas de sucesso da banda L'Alphalpha (uma banda da Indonésia que existe mesmo e tem um ótimo trabalho). Mesmo além delas, a trilha para os momentos da história é excelente em transmitir as emoções das cenas, indo do mais soturno e melancólico à alegria contagiante de um momento simples de diversão.

Também não dá para falar de Afterlove EP sem mencionar as ilustrações de Soyatu, que são vívidas, coloridas e reforçam a sensação de um cotidiano mundano. Com um estilo bem único, o visual do jogo traz um estilo de desenho que consegue combinar uma simplicidade de traço bem expressivo com uma riqueza de detalhes que ajuda a passar a sensação de personalidades individuais em uma metrópole

Detalhes técnicos

Para além de tudo que comentei, vale destacar que Afterlove EP conta com três dificuldades para o ritmo das músicas: Normal, Easy e até um modo Auto para não se preocupar com a performance. As opções de língua são inglês, indonésio (bahasa Indonesia) e japonês apenas. Também podemos ajustar a velocidade dos textos entre Slow, Normal, Fast e Instant.

Não é possível mudar os controles, fora escolher entre usar um teclado ou um gamepad, e não há suporte ao mouse. Apesar do jogo não informar o botão de nenhuma forma (nem durante as cenas de diálogo nem no menu de controles), se o jogador optar pelo uso do teclado, existe um log para os textos, mas o botão para abri-lo não é indicado na tela como os de auto e skip, que não funcionam para os trechos com a voz da Cinta. Para gamepads, é informado o botão no menu de configurações.

Vale destacar que, por algum motivo, os diálogos de Cinta também acabam sendo mais difíceis de passar do que o resto das falas. É necessário apertar mais de uma vez o botão para avançar, o que acaba parecendo um bug em vez de algo intencional.

Uma experiência emocionante

Afterlove EP é uma aventura textual que consegue apresentar de forma impactante e honesta o drama do luto e as dificuldades de se recompor após uma perda tão grande. Emocionante e visceral, esta é uma ótima recomendação a quem curte obras dessa natureza, embora infelizmente o seu lado rítmico seja subaproveitado.

Prós

  • Experiência narrativa emocionante e visceral;
  • Excelente uso da voz da Cinta para fazer a personagem constantemente presente;
  • A honestidade da representação social do jogo faz com que ela tenha nuances nas relações de personagens e até mesmo na representação do protagonista;
  • Boa variedade de eventos para fazer, seja se aproximando de novos personagens, compondo pequenos trechos de música ou lembrando de Cinta;
  • As ilustrações de Soyatu são bastante expressivas e reforçam a sensação de um cotidiano corriqueiro;
  • A trilha sonora conta com ótimas músicas para representar as emoções necessárias para cada momento da trama.

Contras

  • Os trechos musicais não possuem boas indicações do desempenho total, nem feedback sonoro para os acertos;
  • Na prática, a história segue igual, mesmo se o jogador errar todas as notas em algumas performances;
  • Ausência de um modo separado para rejogar as músicas após terminar a história;
  • As falas da Cinta demandam apertar o botão para passar mais de uma vez;
  • Impossibilidade de alterar os controles.
Afterlove EP — PC/PS4/PS5/XSX/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fellow Traveller

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Ivanir Ignacchitti
é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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